“Pegadazo”: como enganar um país e transformar lenda de 50 em brasileiro

Publicidade de um livro que conta com depoimento falso de Ghiggia levou uruguaios a pensar que Obdulio não fosse do país; GloboEsporte.com reuniu os engraçadinhos

OBDULIO ERA BRASILERO - Cuentos de FútbolE se o Brasil descobrisse que Pelé não era brasileiro? Foi mais ou menos esse o tamanho do impacto da informação que circulou por todo o Uruguai em novembro. Que Obdulio Varela não era uruguaio. Mais: havia nascido no Brasil! Justamente a maior lenda e grande símbolo da raça charrua, cabeça (de área) e pensante do Maracanazo de 1950. A bomba saiu dos lábios de Alcides Ghiggia, o único carrasco ainda vivo daquele 16 de julho. E um tremendo ator. Às vésperas da Copa que pode forçar um novo encontro entre as seleções, o GloboEsporte.com reuniu os arquitetos dessa “pegadinha” que sacudiu um país. No dia em que Obdulio virou brasileiro por um dia.

Tudo fez parte da divulgação do livro de contos sobre futebol que ganhou o título de “Obdulio é brasileiro”. Na capa, um desenho do imponente “Negro Jefe”, claro, com a camisa canarinho. Só isso já seria o suficiente para impactar. Mas Hector Mateo, Andres Gomez Caram, Fede Hartman e Angel Cal Bustillo queriam mais. 

– Aqui, nossa pátria é o futebol. Dizer isso seria atentar contra a própria nacionalidade uruguaia.
Futebol é Deus, e Obdulio é Jesus Cristo. A capa é muito forte, teve gente que jogou pedras na minha casa (risos) – brincou o irrequieto Hector Mateo, advogado e que mantém a identidade anônima nas fotos devido ao seu personagem no Twitter.

Vale recapitular que o quarteto mal se conhecia. Foram recrutados por uma editora que gostava de seus textos e publicações nas redes sociais. O primeiro encontro se deu no bar Las Flores, em Montevidéu, onde o grupo se encontrou na semana passada com o GloboEsporte.com. Cada um, portanto, se dispôs a escrever quatro contos, num total de 16. Num deles, de Andres Gomez Caram, há desenvolvida a hipótese de que Obdulio fosse brasileiro. Mas sequer era o título do conto. Virou a grande manchete do livro. 

Coube a Angel Cak Bustillo ter a ideia de colocar Ghiggia em cena. Quando o ex-atacante topou a brincadeira, eles não acreditaram. Era como se um segundo Maracanazo se descortinasse. O quarteto bolou dez frases, numa espécie de script. Ghiggia leu apenas uma à risca. A que interessava.

– Sim, é brasileiro – disparou o ex-jogador.

– Ele improvisou. É um grande ator – lembra Mateo.

A justificativa de Ghiggia se baseava no português que Obdulio teria falado com frequência em seus tempos de Montevideo Wanderers. 

O vídeo foi montado para parecer amador. No YouTube, é possível ver a câmera abaixada ou trêmula, como se gravasse “off the record” a manifestação do entrevistado. Depois, criou-se uma conta falsa para a publicação do material, alegando ter sido obra de estudantes de uma faculdade de comunicação. A bomba ganhou o mundo virtual às 15h de uma quinta-feira, 21 de novembro de 2013, um dia depois de o Uruguai empatar com a Jordânia e se garantir no Mundial, por meio da repescagem.

– Ainda bem que o resultado foi um 0 a 0 sem graça. Isso ajudou para outros assuntos ganharem mídia no dia seguinte – explicou o designer gráfico Fede Hartman.

A “viralização” do conteúdo também foi às escondidas. Um amigo entrou na jogada e se colocou como um dos primeiros a “descobrir” o vídeo. E passou para o quarteto, via Twitter, fingindo incredulidade. Influentes nesse meio, os escritores trataram de também ser atores e encenaram grande surpresa, convidando todos a assistir. E fez sucesso. Uma hora depois, a notícia estava estampada nos dois principais portais de notícias do país.

E, claro, todos começaram a fulminar Ghiggia de ligações.

– Ghiggia aguentou, bancou! – exulta até hoje Mateo.

– Eu estava no meu escritório e um colega se virou para mim: “olha só, Obdulio é brasileiro!” E eu: “não pode ser, como?”. Me sentia mal por ter que disfarçar. Até publicarmos o segundo vídeo, explicando a história, não havíamos contado para mais ninguém. Nem para os nossos pais – relembra o engenheiro Andres Gomez Caram.

A repercussão foi tão grande que foram obrigados a publicar a retratação de Ghiggia um dia depois, na sexta-feira. Mais um show do ex-camisa 7.

– Foi uma piada, me perdoem, foi uma piada. E comprem o livro! – pediu.

– O lançamento do livro foi muito especial, uma semana depois – sorri Hartman, aliviado, porque, no final das contas, acabaram perdoados.

Perdoados e prestigiados. O livro está na segunda edição – há a terceira já a caminho -, com 1,5 mil exemplares vendidos, número expressivo para o mercado local, avisam os simpáticos escritores.

Só não mais expressiva do que a ousadia dessa trupe. Apaixonada por futebol e, sobretudo, por sua seleção. Mateo acompanhará dois jogos do Uruguai no Mundial. E promete levar uns exemplares para o Brasil. Até porque nada mais justo que Obdulio volte, mesmo em forma de livro, ao país em que ganhou uma Copa e que também fora brasileiro por um dia.


FUENTE: globoesporte.globo.com